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Created August 11, 2002
Latest Update: August 11, 2002

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RAZÕES PARA ESPERAR E LUTAR
By P. Clodovis M. Boff, OSM

“Teologia e práticas sociais”: foi o tema do último congresso da SOTER (Sociedade de Teologia e Estudos da Religião).

Estavam presentes prestigiosos nomes da Teologia latino-americana, como J. Comblin, J. Sobrino, X. Gorrostiaga, o Pe. Júlio Lancelotti, M. Clara Bingemer, M. dos Anjos, C. Palácio, B. Ferraro, etc.

Tomaram a palavra também conhecidos intelectuais de esquerda, como João P. Stedile, Paul Singer, F. Whitaker, I. Lesbaupin, A. Lisboa, etc.

Não pude estar presente no encontro. Li apenas os textos.
Mas não gostei do tom geral do discurso dos teólogos: a meu ver, por demais pessimista.
A queixa comum é que a teologia não estaria mais enganchada, como antes, com as novas práticas sociais.
A teologia da libertação e os que com ela se identificam estariam “em crise”. O sentimento geral é de que se vive hoje um forte refluxo.
Carlos Palácio falou da dupla “orfandade”: eclesial e social.
Jon Sobrino lamentava que a Igreja estivesse perdendo a memória de seus mártires.
O economista jesuíta, Xavier Gorrostiaga, que trabalhara nos tempos idos dentro do novo governo sandinista, se mostrava extremamente decepcionado com sua experiência “revolucionária”.
É verdade, alguns mostraram sinais de vida e esperança, como Maria Clara Bingemer, que elencou os temas emergentes da teologia, como a “sedução do sagrado” e a “erótica”; e como o economista Armando Lisboa, que levantou as ricas experiências da “economia solidária”.
Contudo, a visão geral dos debatedores era antes sombria.

Não partilho desta visão.
Nós, que procuramos estar do lado das maiorias pobres, lutando por maior igualdade social (situados por isso à “esquerda”), estaríamos tão mal assim? Não quero negar a realidade e seus aspectos dramáticos: o desemprego crescente, a violência nas cidades, a destruição ecológica e, mais amplamente, a globalização neoliberal que segue adiante, e o império EUA se impondo sem freios políticos e sem maiores cerimônias éticas e jurídicas.
Tudo isso é verdade.
Mas parece-me que ficar nisso e mesmo sublinhar esse aspecto é muito unilateral.
É preciso ser mais dialético e ver também o lado promissor da conjuntura.
Parece-me equivocado em teoria e desmobilizador na prática, especialmente para os cristãos, fixar-se no “sistema” dominante e dizer, como no Apocalipse: “Quem é semelhante à fera e quem poderá lutar com ela”? (Ap 13,4).
É cair no erro de superestimar o adversário e subestimar nossas forças.
Certamente, temos que levar em conta o “sistema”, mas temos mais que pensar em nossas próprias forças, de modo a poder aumentá-las e estar em condições de vencer.

Ora, considerando as forças dos que apostam na transformação social e, aí dentro, os grupos que se identificam com a Teologia da Libertação, vejo mais motivos de esperança que de pessimismo.
Parece-me que hoje melhoramos em três níveis: no nível das atitudes, no nível das práticas e finalmente no nível das convicções de fundo. Há qualquer coisa de novo e de promissor que emerge aí e que vou em seguida explicitar.

  1. Novas atitudes no campo social

    Digamos, para começar, que aprendemos muita coisa, de uns trinta anos para cá, com a experiência de luta que tivemos. Hoje já temos novas posturas em nosso compromisso social. ? Podemos dizer que nos tornamos mais maduros, mais sábios. O que não quer dizer necessariamente ser menos proféticos. Temos hoje menos certezas que dez ou quinze anos atrás. Antes éramos muito dogmáticos, arrogantes e quase fundamentalistas. Hoje aprendemos a ser mais humildes e mais autocríticos. Reconhecemos mais facilmente nossos limites e aprendemos com nossos erros.

    ? Somos também menos rígidos, mais flexíveis e pluralistas. Também nós adotamos no passado certo “pensamento único”. E isso nos fazia em boa parte intolerantes e sectários, levando-nos a estigmatizar com facilidade quem não pensava como nós e provocando com isso danosas divisões internas. Hoje valorizamos a riqueza da variedade: variedade dos atores sociais, dos gêneros, das culturas, da vida em geral, incluindo a ecologia. Especialmente desta última aprendemos uma nova lógica, a que preside aos processos da vida e que vem se chamando “novo paradigma” ou “pensamento holístico”. Isso nos leva a valorizar cada vez mais as interrelações, a dinâmica da pericórese, enfim, tudo “o que soma”, distanciando-nos correlativamente de tudo “o que divide”.

    ? Por isso mesmo somos hoje mais abertos ao diálogo, à negociação, a honrar a parte de verdade que se acha no outro, seja no plano cultural e religioso, seja no plano político e ideológico. Acreditávamos demais nas estratégicas de confronto, como a famosa “luta de classes”. Revendo hoje a facilidade teórica e mesmo moral com que legitimávamos então o recurso à revolução, mesmo violenta, nos dá vontade de rir. Hoje estamos convencidos da força da não-violência como meio político, quando não como “filosofia de vida”.

    ? Somos também mais “radicais” no bom sentido, exatamente ao inverso do sentido deteriorado de “extremista”. Percebemos que as questões que enfrentamos são mais “radicais” ou profundas do que imaginávamos: elas se enraízam finalmente na subjetividade humana, como tinha intuído Marx quando disse: “A raiz do homem é o homem”. Damo-nos conta de que a raiz do ser humano é seu espírito. Portanto, precisamos mexer aí se quisermos oferecer saídas “radicais” aos problemas. Nessa linha, passamos a perceber a importância da subjetividade em sua tríplice esfera:

    - na esfera dos sentimentos, afetos, desejos e emoções – esfera vital para se lutar por um mundo novo e, antes ainda, para se viver, simplesmente;

    - na esfera da ética, que julgamos hoje como uma questão decisiva no campo social e que “compensa”, inclusive politicamente; - e principalmente na esfera da espiritualidade, à qual damos hoje novo valor e com a qual estamos ganhando uma nova intimidade. Tomamos consciência que hoje em dia a dimensão “religiosa” não é apenas o âmbito do pré-político ou do trans-político, mas se tornou uma “questão social” extremamente relevante e que deveria entrar em qualquer agenda política que esteja atenta aos “sinais dos tempos”. Estão aí os fundamentalismos religiosos e seu impacto político, muitas vezes espetacular, como o episódio de 11 de setembro. Estão aí também as “seitas” que se multiplicam e todo o movimento da New Age.

    Todos esses processos são indicadores de que existe hoje uma demanda social transbordante por “sagrado”, por experiência religiosa.

  2. Novas práticas sociais

    O que acabamos de ver refere-se às novas “virtudes” que as forças de oposição e de transformação tiveram que aprender nos anos recentes e que estão tentando viver com êxito desigual. Mas as mudanças não ficaram somente aí, nesse nível das disposições mais gerais. Aparecem também no nível das práticas sociais. Limitando-me aqui ao Brasil, quero referir algumas delas.

    1. Na sociedade civil em geral, está em fermentação uma grande riqueza de experiências sociais, levadas adiante por novos sujeitos: as ONGs, que crescem em número e em intervenção social; poderosos movimentos sociais, como o dos Sem Terra; experiências de economia alternativa e solidária (terceiro setor); o voluntariado social; as Comunidades Eclesiais de Base, que em cada Inter-eclesial, como o último de Ilhéus (no 2000), mostram uma força e disposição surpreendentes.
    2. Os partidos de oposição crescem de eleição a eleição. Suas gestões de base conseguem instaurar programas realmente alternativos, como o “orçamento participativo” e as bolas-escola. O PT, em particular, entra, pela quarta vez, na disputa pelo mandato máximo, a presidência da República (outubro de 2002). 3. O próprio Fórum Social Mundial, de Porto Alegre (31 jan.-5 fev.), símbolo de uma nova globalização e desaguadouro de todo o formigamento social que se alastra mundo afora, está ganhando uma audiência e um volume incríveis (este ano esperam-se até cem mil participantes).

      Toda esta fermentação social evidentemente ainda não “virou o jogo”, não é hegemônica, mas está crescendo cada vez mais e já conseguiu entrar alguns temas importantes na agenda dos Grandes, como a questão da pobreza e da ecologia. Além disso, esses milhares de grupos críticos estão contribuindo para criar, na opinião pública mundial, uma atmosfera de descrédito em relação ao neoliberalismo e à sua globalização excludente e, mais ainda, alimentando no povo a confiança na possibilidade real de um projeto diferente de sociedade mundial. O “pensamento único” está cedendo e a aspiração por uma outra ordem mundial está avançando. Estão se dando conta disso os próprios senhores da situação, cuja mentalidade está emitindo alguns sinais de mudança.

  3. Convicções fundamentais renovadas

    Finalmente, é preciso dizer que toda essa luta social e política está sustentada, mais no fundo, por algumas apostas transcendentais. São estas que conferem ao compromisso libertador suas razões inabaláveis de esperar:

    ? A aposta da liberdade humana. Esta é uma aposta de tipo antropológico, que “faz fé” na dignidade da pessoa humana, inclusive e especialmente do pobre. Ser pessoa é essencialmente ser “espírito”, enquanto ser aberto ao infinito e rebelde a todo fechamento intra-mundano. Falando existencialmente, os militantes do “mundo novo” acreditam que o ser humano é maior que qualquer sistema social. Estão convencidos de que, no fim das contas, é concretamente a liberdade de cada pessoa que dá a última “determinação de sentido” às coisas, inclusive a toda e qualquer opressão social. O neoliberalismo pode excluir quanto quiser e pode buscar à vontade legitimações várias para seus projetos egoístas, isso não vai protegê-lo do rechaço ético-político que, cedo ou tarde, lhe lançarão os indivíduos, sejam eles muitos ou poucos, e seja até mesmo um só, como o cidadão chinês que enfrentou, sozinho e desarmado, os tanques da Praça Tien-An-Men e que se tornou o símbolo do poder da liberdade sobre o “sistema”.

    ? A aposta ética. Os que lutam para mudar o mundo são movidos também pela fé de que, como sentenciou Gandhi, “no fim é a verdade e a justiça que terão a última palavra”. Quem está do lado da justiça e da solidariedade está do lado do futuro e está também, em certo sentido, do lado da vitória. Esta aposta moral tem na verdade um fundamento ontológico inconcusso: o bem, como o ser, é “o que tem força”. Segundo Sto. Tomás, o mal pode ser maior que o bem, mas nunca mais forte. Um “grão de bondade” vale mais que uma “montanha de maldade”. Por que? A razão é metafísica: o bem é positividade, substancialidade, enquanto o mal é negatividade, privação. “A luz resplandece nas trevas, mas as trevas não puderam apreendê-la” (Jo 1,5).

    ? Por fim, a aposta teológica. A razão mais sólida e radical que sustenta e move a luta ao lado dos pobres é a fé no Deus da vida e no seu projeto de libertação integral: a libertação de todo o homem e do homem todo. “Deus o quer”: é com este grito que cristãos e cristãs partem para a “nova cruzada” da solidariedade contra as misérias e exclusões de hoje. E quem poderá contra aquele que, na luta pelos direitos do fraco, está com o Onipotente? Essa mística carrega a esperança de uma energia propriamente “teologal”, tornando-a invencível frente a qualquer poder deste mundo, porque é uma força que leva até o martírio – prova extrema do amor, o “dar a vida por quem se ama” (Jo 15,13).

Levantar alto a “bandeira da esperança”

Pelas várias razões que acima explicitamos, não dá mais para ficar todo o tempo se lamentando das dificuldades sociais e eclesiais e se deixar cair na depressão.
É preciso olhar com mais penetração e profundidade na realidade atual, que é muito mais rica do que estamos acostumados a imaginar. Por isso, é preciso arvorar cada dia, e sempre mais alto, a bandeira da esperança, cuja cor é o “sempre-verde teologal”.
Também não dá mais para sustentar a consigna contraditória de “ser pessimista na teoria e otimista na prática”, mesmo em sua versão mais branda: “ter a cabeça fria e o coração quente”.
O que importa é ser coerente tanto na teoria como na prática, tanto na cabeça como no coração. Cabeça e coração precisam, ambos, ter a temperatura certa: a alta temperatura da “fé que opera pelo amor” (Gl 5,6).

Seriam as razões que aduzi uma espécie de auto-elogio?
Longe disso. As “razões de nossa esperança”, que acabei de elencar e que se deve sempre “dar com suavidade e respeito” (1Pd 3,15), não autorizam qualquer forma de complacência.
O pessimismo masoquista que critiquei não se supera com o otimismo narcisista, mas com a verdade das próprias convicções, partilhadas em profundidade.

Quero dizer, por fim, que o que importa mais tudo é que nos esforcemos por “estar na verdade e na justiça”. Então não conheceremos derrota: “a morte não reinará sobre a terra, porque a justiça é imortal” (Sb 1,14-15).

Curitiba, 30 de dezembro de 2001.